25 de outubro de 2017

Ociosamente ignorantes

            Pensar dá trabalho. Para quê pensar? Todos os dias somos bombardeados com informações de supostos especialistas, cada um a tentar vender-nos os seus “conhecimentos”. Gurus do fitness dizem-nos o que comer e como fazer exercício físico; a indústria da moda diz-nos que roupas devemos gostar e vestir; as rádios dizem-nos que música ouvir e os órgãos de comunicação social dizem-nos a que questões devemos prestar atenção. Mas no meio disto tudo, muita informação é perdida; porque ela já foi seleccionada e o que chega até nós é apenas uma parte. O resto não interessa (ou convém a alguém que não nos interesse), porque o conhecimento é poder e se não conhecermos alternativas, ficamos limitados a escolher aquilo que nos apresentam.
            A cultura consumista é o motor que permite o escoamento dos milhões de produtos fabricados em massa, um pouco por todo o mundo. A indústria quer produzir maiores quantidades, mais depressa, a menor custo. Mas todas estas coisas precisam de ser vendidas para haver lucro, então enormes forças se mobilizam para convencer o cidadão comum que precisa de comprar um produto exactamente igual ao que já tem (vezes e vezes sem conta). As coisas perdem o seu valor muito rapidamente; já saíram outros modelos novos, diferentes (são mesmo assim tão diferentes?), alegadamente melhores ou mais rápidos, mais bonitos. Os adjectivos escolhidos para promover o produto não importam muito, o que interessa é que o produto que se tem em casa já não serve e tem de ser substituído. Convencem-nos de que os nossos gostos devem mudar todas as estações. Qualquer coisas se pode tornar descartável: roupa, acessórios, gadgets, quem sabe até mesmo conhecimento e relações (pessoas??).
            Os objectivos das pessoas deixam de estar relacionados com carácter, experiências e crescimento pessoal e passam a estar relacionados com formas de ascensão social, obter riqueza e possuir coisas. Então as pessoas estão ocupadas a tentar ter dinheiro para consumir sempre mais, elas vivem “felizes” sem contestar seja o que for enquanto tiverem condições para manter o seu estilo de vida. Quando o foco está nos bens materiais que se possui, questões morais e éticas passam-nos ao lado. Cada um é livre de fazer o que quer, desde que não me prejudique a mim directamente porque devo preocupar-me?
            Se o nosso olhar não passar do nosso quintal, seremos de facto actores na sociedade em que vivemos ou seremos apenas espectadores? Como poderemos discutir sobre aquilo que não conhecemos (nem nos damos ao trabalho de conhecer)? Com tanto conhecimento disponível, literalmente, na ponta dos nossos dedos porque não nos damos ao trabalho de nos informar sobre o que (de facto) se passa à nossa volta?
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