O que mais devemos temer neste mundo é a mente
humana, devido à sua inegável capacidade de tornar vivos os mais macabros
pensamentos, os mais horríveis murmúrios e os mais tórridos desejos.
Todos os dias assistimos a variadíssimas catástrofes.
Assassinatos, epidemias e intempéries são apenas alguns exemplos de catástrofes
que diariamente povoam o universo noticioso. Exasperada com tanta desgraça, a
sociedade anseia pela nomeação de um culpado, um bode expiatório capaz de fazer
jus à sua sede de justiça. Animada por inúmeros argumentos ficcionais que se
limitam a apresentar um crime/caso e a presentear o espectador com um culpado,
a sociedade avança desgovernada na sua busca.
Depressa as diferenças
sociais/económicas/religiosas se fazem sentir e a sociedade divide-se, tendo
cada grupo elegido um culpado diferente. Para uns, de débeis crenças
religiosas, o culpado será certamente o deus em que dizem acreditar, por
permitir a ocorrência de tais atrocidades. Para outros, asfixiados pela
fractura económica da sociedade, tendo eles caído nela (encontrando-se portanto
na tão temida e odiada classe média) dirão que os responsáveis são os
respeitosíssimos proprietários de grandes empresas/multimilionários; ou ,quiçá,
os seus respectivos governos pela sua inércia face aos actos aéticos de uma
minoria mais rica e poderosa.
Por ganância, o homem é capaz das maiores
atrocidades. Ao longo dos séculos podemos observar isso mesmo e,
consequentemente, foi deixado um rasto de instabilidade, destruição e caos.
Tendo explorado a Natureza sem calcular a velocidade de reposição das matérias
primas, o Homem tem vindo a extinguir a sua possibilidade de sobrevivência
futura, tendo já comprometido a vida de várias espécies e erradicado a de
outras. Para além disso, o Homem iniciou também uma nova vaga de genocídio,
sendo este não assumido. A distribuição desequilibrada de alimentos, bens e
serviços pela população mundial faz com que, directa ou indirectamente, os
países desenvolvidos sufoquem os países sub-desenvolvidos, resultando assim
nesse tal genocídio.
As ambições levam também a invasões, ameaças e
guerras. Hoje, em semelhança do passado, mascaram-se guerras com motivações
meramente económicas forjando falsas motivações políticas, sociais ou
religiosas. Nesta odisseia rumo ao controlo da economia mundial todos os
motivos são válidos para a manipulação do cidadão comum, que ingenuamente
acredita nas palavras das autoridades corruptas que pensa eleger. Assim, defendendo
os interesses dos que lhes confinam dinheiro e poder, os líderes mundiais
embarcam também nesta grande aventura económica, ignorando os juramentos que
outrora fizeram, deixando assim para trás os fieis eleitores que lhes confiaram
os seus impostos.
Não bastando isto, uma imensidão de corvos
invadem os miserandos cenários de destruição e morte, explorando-a como se a
detivessem. Registando cuidadosamente cada paisagem desoladora, vendem até o
mais mórbido detalhe ao ávido consumidor, que rejubilando na glória da sua
vida, despreza e ignora todo aquele que se vê enredado nas teias da desgraça.
Este tal consumidor torna-se dependente, tornando-se cada vez mais desesperado
por carnificina, ansiando anestesiar a angústia do seu próprio fracasso.
Por fim, uma última camada subsiste, que
vivendo no limiar da prostituição sacrifica o seu saber. Criando pontes para
outros mundos, esta camada torna possível às outras a abstracção de tudo o que
as atormenta. Tendo sido discutido, por inúmeras vezes, a sua utilidade, a sua
existência é frágil e, por vezes, decadente. Ainda assim, o seu conhecimento é
invejado e admirado e, por isso mesmo, os homens lhes chamam artistas.
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