8 de outubro de 2017

Fracturas

O que mais devemos temer neste mundo é a mente humana, devido à sua inegável capacidade de tornar vivos os mais macabros pensamentos, os mais horríveis murmúrios e os mais tórridos desejos.
Todos os dias assistimos a variadíssimas catástrofes. Assassinatos, epidemias e intempéries são apenas alguns exemplos de catástrofes que diariamente povoam o universo noticioso. Exasperada com tanta desgraça, a sociedade anseia pela nomeação de um culpado, um bode expiatório capaz de fazer jus à sua sede de justiça. Animada por inúmeros argumentos ficcionais que se limitam a apresentar um crime/caso e a presentear o espectador com um culpado, a sociedade avança desgovernada na sua busca.
Depressa as diferenças sociais/económicas/religiosas se fazem sentir e a sociedade divide-se, tendo cada grupo elegido um culpado diferente. Para uns, de débeis crenças religiosas, o culpado será certamente o deus em que dizem acreditar, por permitir a ocorrência de tais atrocidades. Para outros, asfixiados pela fractura económica da sociedade, tendo eles caído nela (encontrando-se portanto na tão temida e odiada classe média) dirão que os responsáveis são os respeitosíssimos proprietários de grandes empresas/multimilionários; ou ,quiçá, os seus respectivos governos pela sua inércia face aos actos aéticos de uma minoria mais rica e poderosa.
Por ganância, o homem é capaz das maiores atrocidades. Ao longo dos séculos podemos observar isso mesmo e, consequentemente, foi deixado um rasto de instabilidade, destruição e caos. Tendo explorado a Natureza sem calcular a velocidade de reposição das matérias primas, o Homem tem vindo a extinguir a sua possibilidade de sobrevivência futura, tendo já comprometido a vida de várias espécies e erradicado a de outras. Para além disso, o Homem iniciou também uma nova vaga de genocídio, sendo este não assumido. A distribuição desequilibrada de alimentos, bens e serviços pela população mundial faz com que, directa ou indirectamente, os países desenvolvidos sufoquem os países sub-desenvolvidos, resultando assim nesse tal genocídio.
As ambições levam também a invasões, ameaças e guerras. Hoje, em semelhança do passado, mascaram-se guerras com motivações meramente económicas forjando falsas motivações  políticas, sociais ou religiosas. Nesta odisseia rumo ao controlo da economia mundial todos os motivos são válidos para a manipulação do cidadão comum, que ingenuamente acredita nas palavras das autoridades corruptas que pensa eleger. Assim, defendendo os interesses dos que lhes confinam dinheiro e poder, os líderes mundiais embarcam também nesta grande aventura económica, ignorando os juramentos que outrora fizeram, deixando assim para trás os fieis eleitores que lhes confiaram os seus impostos.
Não bastando isto, uma imensidão de corvos invadem os miserandos cenários de destruição e morte, explorando-a como se a detivessem. Registando cuidadosamente cada paisagem desoladora, vendem até o mais mórbido detalhe ao ávido consumidor, que rejubilando na glória da sua vida, despreza e ignora todo aquele que se vê enredado nas teias da desgraça. Este tal consumidor torna-se dependente, tornando-se cada vez mais desesperado por carnificina, ansiando anestesiar a angústia do seu próprio fracasso.

Por fim, uma última camada subsiste, que vivendo no limiar da prostituição sacrifica o seu saber. Criando pontes para outros mundos, esta camada torna possível às outras a abstracção de tudo o que as atormenta. Tendo sido discutido, por inúmeras vezes, a sua utilidade, a sua existência é frágil e, por vezes, decadente. Ainda assim, o seu conhecimento é invejado e admirado e, por isso mesmo, os homens lhes chamam artistas.
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