31 de agosto de 2017

Barreira

Quando acordei sentia-me fria. Olhei para o lado e já não lá estavas. Tiras o que queres e vais-te quando te apetece, sem avisar e sem sentir saudades… Na verdade, que sei eu sobre o que sentes? Nunca foste sincero comigo… Como poderia saber o que não me queres mostrar?

Voltaste da mesma forma como tinhas desaparecido, de repente e sem dizer nada; como se fosses apenas uma sombra ou uma folha, levada pelo vento. Todo o tipo de memórias corria pela minha mente: boas, más, alegres, disparatadas… Não posso de algum modo dizer que o tempo que passei contigo me tenha feito bem, mas tivemos os nossos momentos e divertíamo-nos. Se há palavra que nunca usaria para te descrever é aborrecido, coisa que não posso dizer de muita gente que conheço.
            As memórias daqueles dias em que a vida parecia ter mais cor eram agora apenas vultos irreconhecíveis, mas o que senti estava bem presente, marcado no meu coração, tal fora a intensidade. Apesar das tuas constantes dúvidas e inabalável desconfiança, o que senti por ti era verdadeiro, mais verdadeiro do que alguma coisa que alguma vez sonhei sentir. Ainda que imperfeito, talvez até infantil e ingénuo, mas sempre altruísta e verdadeiro. Aquele sentimento que me deu força para ser paciente, esperar até não aguentar mais a dor que aos poucos consumia o meu coração.
            Agora, tudo o que sinto empalidece ao lado das memórias daqueles dias. Apesar de tudo ter passado, até a dor e o ressentimento, as memórias do que senti eram um muro intransponível que me impediam de seguir em frente. Nada parecia ter força suficiente para me puxar para novos destinos.
Os meios sorrisos, os olhares tímidos e as piadas que não compreendo. Os espaços em branco que me fazem reparar nas frases calculadas, repetidas e treinadas para que não falhem o seu objectivo. Quando a minha sinceridade espanta, o desinteresse torna-se visível. Torna-se então aparente que apenas querem alguém interessado em participar nos longos e desnecessários jogos mentais que aparentemente fazem parte do processo de cortejo hoje em dia.
Se não fores uma “new face” o teu valor de mercado diminui radicalmente, porque só és interessante enquanto és uma novidade. Quando todas as conversas se tornarem sérias; quando te começares a afeiçoar; quando não houver mais sítios por explorar, a tua existência torna-se então uma repetição de factos conhecidos (pensam eles).
Só o tempo poderá trazer o verdadeiro conhecimento, mas muitos escolhem ficar-se para superfície. Talvez por ser mais fácil ou mais confortável, ou até mesmo por medo. Quem sabe… Como observadora, tudo o que posso dizer é que quem não está disposto a perder também não ganha nada.
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