Estava
um calor insuportável e já andava há 2 horas às voltas na cama.
Levantei-me e fui até à varanda. Corria uma leve brisa, por isso
deixei-me ficar ali até me sentir cansado. Sentei-me a contemplar o céu
estrelado e acendi um cigarro. Nunca soube identificar constelações
mas de uma coisa estava certo, naquele lugar as estrelas brilhavam com
mais intensidade. Há muito que esperava um novo começo e tudo ali me
dava esperança.
De
repente, a brisa parou e então uma nova diversão surgiu: observar o
fumo do cigarro. Que pena não poder moldá-lo. Desaparece demasiado
depressa e além disso tem uma textura áspera, não é como outros fumos
bem mais agradáveis, à vista e não só. Tirei um pedaço de papel das
calças, acendi o isqueiro e meti-o a arder. Pousei-o no cinzeiro e
deixei-o ali. Sempre gostei de ver coisas a arder, o fogo fascina-me. O
seu poder purificador, a capacidade de consumir as coisas, de destruir
coisas maiores que ele, de libertar um calor quase tão violento como o
efeito que tem nos meus olhos... O seu único defeito é não poder
tocar-lhe, ao contrário da água, pois como a maior parte das coisas
incrivelmente belas é selvagem e intocável.
Finalmente
a chama apaga-se e com ela vão-se todos os meus pensamentos. Agora não
resta mais nada, a não ser aquele olhar profundo que me deixa tão
confuso. Aquela rapariga intriga-me. É sempre tão determinada a
defender aquilo que acredita que parece impossível quebrá-la, mas
quando o assunto são coisas pessoais transforma-se numa criatura
insegura e assustadiça.
Quando finalmente começo a adormecer, o despertador toca e está na hora de ir. Mais uma noite em branco...
Saí
de casa e enfiei-me num autocarro atulhado de pessoas, a pensar nas
semelhanças entre este autocarro e uma caixa de fósforos. Pelo caminho
via pessoas a entrar em prédios, dirigindo-se para os seus postos de
trabalhos como cordeiros. Por momentos, cada janela pareceu-me um
pequeno buraco das grades de uma jaula. Às vezes pergunto-me se há quem
veja o mundo desta maneira, ou se a minha visão é muito distorcida e
até mesmo fantasista. Seja como for, para mim cada dia é uma
oportunidade para fazer novas descobertas e faço questão de
aproveitá-la.
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