29 de junho de 2012

Sem título

Estava um calor insuportável e já andava há 2 horas às voltas na cama. Levantei-me e fui até à varanda. Corria uma leve brisa, por isso deixei-me ficar ali até me sentir cansado. Sentei-me a contemplar o céu estrelado e acendi um cigarro. Nunca soube identificar constelações mas de uma coisa estava certo, naquele lugar as estrelas brilhavam com mais intensidade. Há muito que esperava um novo começo e tudo ali me dava esperança. 
De repente, a brisa parou e então uma nova diversão surgiu: observar o fumo do cigarro. Que pena não poder moldá-lo. Desaparece demasiado depressa e além disso tem uma textura áspera, não é como outros fumos bem mais agradáveis, à vista e não só. Tirei um pedaço de papel das calças, acendi o isqueiro e meti-o a arder. Pousei-o no cinzeiro e deixei-o ali. Sempre gostei de ver coisas a arder, o fogo fascina-me. O seu poder purificador, a capacidade de consumir as coisas, de destruir coisas maiores que ele, de libertar um calor quase tão violento como o efeito que tem nos meus olhos... O seu único defeito é não poder tocar-lhe, ao contrário da água, pois como a maior parte das coisas incrivelmente belas é selvagem e intocável. 
Finalmente a chama apaga-se e com ela vão-se todos os meus pensamentos. Agora não resta mais nada, a não ser aquele olhar profundo que me deixa tão confuso. Aquela rapariga intriga-me. É sempre tão determinada a defender aquilo que acredita que parece impossível quebrá-la, mas quando o assunto são coisas pessoais transforma-se numa criatura insegura e assustadiça. 
Quando finalmente começo a adormecer, o despertador toca e está na hora de ir. Mais uma noite em branco... 
Saí de casa e  enfiei-me num autocarro atulhado de pessoas, a pensar nas semelhanças  entre este autocarro e uma caixa de fósforos. Pelo caminho via pessoas a  entrar em prédios, dirigindo-se para os seus postos de trabalhos como  cordeiros. Por momentos, cada janela pareceu-me um pequeno buraco das  grades de uma jaula. Às vezes pergunto-me se há quem veja o mundo desta  maneira, ou se a minha visão é muito distorcida e até mesmo fantasista.  Seja como for, para mim cada dia é uma oportunidade para fazer novas  descobertas e faço questão de aproveitá-la.
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