Acordo no meio de um frenesim de pessoas, passando apressadamente
de um lado para o outro. A minha visão turva começa lentamente a aclarar e a
mistura de sons que ouço é apenas um emaranhar de conversas, todas presentes,
todas distantes. Na minha cabeça, uma nuvem de dor balança nos recantos do meu
crânio como de um polvo se tratasse, descrevendo ágeis movimentos de uma dança
secular. Só passados uns minutos me apercebi que as mensagens do sistema
nervoso central falhavam em chegar aos meus músculos. Qualquer tipo de
movimentos são agora uma tarefa impossível para mim, estou preso no meu próprio
corpo.
Ao longe, os meus ouvidos escutam o som de pequenas gotas, que
lentamente caem sobre uma viga de ferro. Numa incrível luta pela sobrevivência,
a ferrugem espalha-se e o que antes suportava uma enorme estrutura, agora é
corroído por incontroláveis forças exteriores. O zunido dos tempestuosos ventos
são o presságio do cenário do futuro mais provável do grande edifício, agora
abandonado. Local preferido das nossas aventuras; ponto de encontro das nossas
existências; testemunha da nossa paixão prescrita, sem fim definido ou começo
marcado. Os grão de pó marcam as sombras dos nossos ondulantes corpos, em
tempos unidos, embora fugazmente. Lembrança dolorosa da ténue chama que
timidamente acompanhava os nossos serões. As palavras que o silêncio murmurava
e os gritos abafados da tua voz seca, mergulhados em cores disformes,
consequência única da nossa loucura. O assustador bater que ameaçava partir as
paredes nada mais era que o que maquinal som do meu pulsar, cavalgando nas
encruzilhadas da interminável busca de perfeição. Sempre pensei que um dia nos
elevaríamos a um estado de êxtase tal que ousaríamos alcançar uma dormência
quase divina, ainda que por breves instantes. Mas sem que desse por isso,
aquele magnifico rubor desapareceu da tua face, sem explicação possível e sem
aviso prévio. E assim, mesmo não sabendo porquê, a tua mão foi-se desenlaçando
da minha e a nossa união foi rudemente atirada para uma canto obscuro da tua
existência, na esperança de não a recordares mais. Deixaste-me aqui, vazio, com
o cabelo num desalinho total na esperança de puder voltar àqueles segundos em
que descolei numa viagem espacial, sem planos de regresso.
Oh, que vã coragem é a minha que me deixa paralisado na tua
ausência, ofuscando o desejo de correr para ti... Neste momento todas as acções
decorrem na minha cabeça, palco das incontáveis colisões entre orgulhos e
sentimentos.
Quando finalmente ignorar os limites da minha compreensão, sairei
deste sonho com a força para agir e alterar o rumo dessa devastadora feiticeira
por muitos temida, cujo nome prefiro não pronunciar até a ter derrotado.
Será verdade ou terei imaginado esse teu olhar, que causa a
libertação de um inigualável sentimento de culpa das minhas entranhas, até se
desfazer, destruído-me o estômago? De onde vem essa força destrutiva que
desconhecia até agora? Tudo o que sempre fizeste foi construir onde nada
existia e presentemente ameaças deitar tudo por terra.
Talvez seja insensato buscar sentido numa coisa que nunca o teve,
ainda que seja irresistivelmente divertido tentar, no início. Depois a euforia
passa e o sonho é forçadamente esquecido, deixando à vista a crua realidade que
se impõe, esmagando vontades. Mais tarde, voltarás como vieste, causando uma
maré agitada de sensações que pensava não puder sentir novamente. E nesse
instante, poderei finalmente exclamar alegremente "Estou vivo!".
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