27 de maio de 2012

Narrativas de uma quase vida

Acordo no meio de um frenesim de pessoas, passando apressadamente de um lado para o outro. A minha visão turva começa lentamente a aclarar e a mistura de sons que ouço é apenas um emaranhar de conversas, todas presentes, todas distantes. Na minha cabeça, uma nuvem de dor balança nos recantos do meu crânio como de um polvo se tratasse, descrevendo ágeis movimentos de uma dança secular. Só passados uns minutos me apercebi que as mensagens do sistema nervoso central falhavam em chegar aos meus músculos. Qualquer tipo de movimentos são agora uma tarefa impossível para mim, estou preso no meu próprio corpo.
Ao longe, os meus ouvidos escutam o som de pequenas gotas, que lentamente caem sobre uma viga de ferro. Numa incrível luta pela sobrevivência, a ferrugem espalha-se e o que antes suportava uma enorme estrutura, agora é corroído por incontroláveis forças exteriores. O zunido dos tempestuosos ventos são o presságio do cenário do futuro mais provável do grande edifício, agora abandonado. Local preferido das nossas aventuras; ponto de encontro das nossas existências; testemunha da nossa paixão prescrita, sem fim definido ou começo marcado. Os grão de pó marcam as sombras dos nossos ondulantes corpos, em tempos unidos, embora fugazmente. Lembrança dolorosa da ténue chama que timidamente acompanhava os nossos serões. As palavras que o silêncio murmurava e os gritos abafados da tua voz seca, mergulhados em cores disformes, consequência única da nossa loucura. O assustador bater que ameaçava partir as paredes nada mais era que o que maquinal som do meu pulsar, cavalgando nas encruzilhadas da interminável busca de perfeição. Sempre pensei que um dia nos elevaríamos a um estado de êxtase tal que ousaríamos alcançar uma dormência quase divina, ainda que por breves instantes. Mas sem que desse por isso, aquele magnifico rubor desapareceu da tua face, sem explicação possível e sem aviso prévio. E assim, mesmo não sabendo porquê, a tua mão foi-se desenlaçando da minha e a nossa união foi rudemente atirada para uma canto obscuro da tua existência, na esperança de não a recordares mais. Deixaste-me aqui, vazio, com o cabelo num desalinho total na esperança de puder voltar àqueles segundos em que descolei numa viagem espacial, sem planos de regresso.
Oh, que vã coragem é a minha que me deixa paralisado na tua ausência, ofuscando o desejo de correr para ti... Neste momento todas as acções decorrem na minha cabeça, palco das incontáveis colisões entre orgulhos e sentimentos.
Quando finalmente ignorar os limites da minha compreensão, sairei deste sonho com a força para agir e alterar o rumo dessa devastadora feiticeira por muitos temida, cujo nome prefiro não pronunciar até a ter derrotado.
Será verdade ou terei imaginado esse teu olhar, que causa a libertação de um inigualável sentimento de culpa das minhas entranhas, até se desfazer, destruído-me o estômago? De onde vem essa força destrutiva que desconhecia até agora? Tudo o que sempre fizeste foi construir onde nada existia e presentemente ameaças deitar tudo por terra.

Talvez seja insensato buscar sentido numa coisa que nunca o teve, ainda que seja irresistivelmente divertido tentar, no início. Depois a euforia passa e o sonho é forçadamente esquecido, deixando à vista a crua realidade que se impõe, esmagando vontades. Mais tarde, voltarás como vieste, causando uma maré agitada de sensações que pensava não puder sentir novamente. E nesse instante, poderei finalmente exclamar alegremente "Estou vivo!".
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