Acordei
ao sentir o suave toque de uns delicados raios de luz, que espreitavam
pela janela do meu quarto. Ao longe, ouvia o som de pássaros, que
esvoaçavam ao longo da rua. O dia amanhecia calmo e o sol levantava-se
vagarosamente do horizonte. Como acordei antes do despertador tocar,
decidi fazer as coisas com calma. Liguei a aparelhagem, pus um dos meus
CDs de música do mundo. Acordar daquela maneira deu-me vontade de ouvir
Joe Hisaishi. Aumentei o volume até me parecer suficiente e fui tomar
banho. Ah! Não há nada como sentir o cabelo a ficar molhado e a
esticar-se, escorrendo lentamente pelas minhas costas...
A
água lava tudo menos os meus pensamentos, esses continuam iguais. O
barulho da água a correr recordou-me daquele dia de chuva em que o
encontrei. O olhar dele estava sério, algo triste. O rosto estava
pesado, parecia pedra. E o corpo fechado em si, bloqueando tudo à sua
volta. Naquele momento não percebi porque agia assim, mas agora tudo
fazia sentido: estava desiludido. Quando a resposta que lhe dava não era
a que desejava, olhava-me fixamente por alguns segundos, como se
esperasse uma acção minha que reparasse os danos das minhas palavras.
Apesar de demonstrar sempre uma natureza gentil quando se acompanha de
mim, receio o que poderá esconder. A verdade é que tenho tendência para
me relacionar com homens que me iludem com as suas palavras gentis. Em
tempos, acreditava quer que eram reflexo da sua natureza bondosa e
amável, mas depois percebi que apenas serviam para manipular a minha
ingenuidade. Como eu gostava de acreditar que as suas intenções são
nobres...
O despertador está a tocar. Finalmente! Está na altura de desligar a aparelhagem e tomar o pequeno almoço.
Ao
fim de alguns minutos, por toda a cozinha se sentia o meu cheiro
matinal preferido: café acabado de fazer. Enchi uma grande chávena (que
eu gostava de denominar chávena, mas que a minha mãe afirmava ser uma
tigela) de café bem quente e juntei um pouco de açúcar. Aquele café
precisava de açúcar, não era como o que eu guardava apenas para os
Domingos.
Apressei-me
a descer a rua até chegar à casa da Camila. Conhecemo-nos desde os 3
anos de idade e desde aí que nos tornámos praticamente inseparáveis.
Vamos todos os dias juntas para a cidade e a verdade é que não há mais
ninguém com quem eu queira partilhar aquela meia hora diária até à
universidade...
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