19 de março de 2018

Um segundo

                  Um segundo passa. Mais um dia que chega ao fim e com ele, extingue-se também uma chama. Uma vida chega ao fim. Tudo vês e nada fazes; estás apático, insensível. Por preguiça, talvez, ignoras o choro do teu irmão que sofre e prossegues a tua vida, indiferente.
                  “Não é que seja egoísta”, pensas tu enquanto partilhas notícias sobre desgraças alheias. “Que posso eu fazer para mudar as coisas? Sou só uma pessoa, não tenho poder nenhum” dizes tu, e assim te vais desculpando pela tua inacção.
                  Dizem que somos livres, livres para expressar a nossa opinião, sem medo de represálias. E no entanto, tu vives mudo. Nada sai da tua boca que não esteja em concordância com os que te rodeiam, afastas-te de assuntos complicados, sensíveis e por vezes até controversos. Afinal de contas, a vida é tão curta, porquê falar de coisas chatas ou tristes?
                  Não só vives calado como não tentas ouvir. Estás fechado em ti, sem deixar entrar o que afirmas não te interessar. Tentas não criar ondas, viver sem grandes complicações nem preocupações. Manténs-te fora dos assuntos dos outros, porque também não queres que metam nos teus. Cada um tem de resolver os seus problemas, pensas tu.
                  Agora pensa. Pára por um segundo e pensa. Quem beneficia com o teu silêncio? Todos temos uma voz, que merece ser ouvida e que deveria ser usada. E se és livre, porque te concederam essa liberdade, porque não a usas? Porque te limitas a fazer o que todos fazem, a seguir o caminho que te dizem que deves seguir, sem reflectir? Porque não usas a tua voz para defender tantos outros que são silenciados; que por medo, incapacidade ou até mesmo repressão, não podem usar as deles?
                  Podes não conseguir fazer muito, podes até achar que não faz a diferença. Mas todos temos o poder de escutar, dar a nossa atenção a quem nos pede ajuda e, quando mais não conseguimos fazer, podemos, pelo menos, transmitir a história de quem sofre aos que nos rodeiam, para que chegue a quem consiga ajudar.
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20 de fevereiro de 2018

O mundo precisa de mais sorrisos


                  O mundo precisa de mais sorrisos. Sorrisos naturais, genuínos, que irradiem a luz que reflecte o afecto e a felicidade que guardamos dentro de nós.
                  Desafio-vos a sorrir. A quebrar as máscaras de indiferença que usamos no dia a dia e a revelar sem medo o melhor de nós. Experimentem. Estou certa que alguém há de sorrir de volta.
                  Um sorriso caloroso, uma palavra amiga, um pequeno gesto que nos toca. Actos genuínos de amizade e amor que chegam ao nosso coração, pela beleza da sua simplicidade. Não precisamos de grandes actos para mudar o mundo, apenas de encarar o outro com sinceridade.
                  Há momentos que nos marcam e encontros que nos transformam. Por todas as memórias impagáveis que trago desta semana de missão, um MUITO OBRIGADA a todas as pessoas que estiveram comigo nesta Missão Pais ISCTE 2018!
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31 de janeiro de 2018

Janeiro

Sentei-me olhando apaticamente para as redondezas. O sol escondia-se por entre as nuvens, por isso o dia estava longe de ser luminoso. Apesar disso não estava escuro, mas era o suficiente para tudo parecer ter menos cor. Nada me chamava particularmente à atenção e a falta de luz dava a ilusão de ter parado o tempo.
Passavam pessoas caminhando apressadamente, sem poupar um segundo para olhar à sua volta. A sua marcha inexpressiva denuncia a indiferença instalada nas suas mentes e perguntei-me se os seus corações estariam tão sós como as suas figuras. Assim como o calor do sol que hoje insiste em esconder-se, talvez também a ternura que outrora sentiram esteja num lugar oculto, mesmo até da própria vista.
Porque é que hoje tudo parece tão frio?
Desde quando é que nos tornamos máquinas? Máquinas que caminham freneticamente, sem hesitação; que passam mas não vêem. Será a capacidade de empatia que ficou perdida ou a vontade de ser mais do que um amontoado de vontades egoístas e pensamentos egocêntricos?
Cruzamo-nos sem nada dizer e sem trocar qualquer gesto que reconheça a presença do outro; de olhar vidrado e inexpressivo, como se não fossemos mais que bonecos sem vida. Já nem as maiores atrocidades são capazes de captar a nossa atenção, porque tudo se tornou banal e a memória de um acontecimento facilmente é substituída por outro mais recente.
Temos medo de observar calmamente e conhecer de facto; porque é tão fácil ignorar o que desconhecemos e se o passássemos a conhecer teríamos de dar valor. Que faríamos se nos apegássemos e tivéssemos de dispensar parte do nosso tempo a pensar em algo que não nos afecta directamente. Mas quem julgas que sou, a Madre Teresa?!
Talvez esteja na altura de expandir horizontes e olhar para além das nossas redomas, que nos limitam a uma realidade fabricada, que quase acreditamos conseguir controlar, tal é a nossa ilusão. Claro, o desconhecido pode ser assustador, podemos ficar magoados, não conseguimos controlar os resultados; mas sacrificar a nossa curiosidade e a nossa capacidade de criar novos laços é eliminar uma parte importante da nossa humanidade.
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26 de janeiro de 2018

Suspiro

Olhei para a praia e lá estava ele. Calmo, impassível, imperturbável. Os seus olhos transmitiam uma serenidade que não compreendia. Por momentos deixei-me perder nos seus olhos, esquecendo-me da razão que me trouxera ali, como se flutuasse num vasto oceano.
Só ele tinha a capacidade de me fazer sentir assim, perdida no nada, despojada de preocupações e pensamentos complexos. Ah, que ser humano intrigante! A força da sua calma nunca deixava de me surpreender. Não era uma calma estática, passiva e apática, como se quisesse ignorar as coisas à sua volta. Não! Era o profundo conhecimento do que o rodeava que lhe permitia encarar o mundo sem medo e sem rodeios, mas sempre de forma serena. Sem pressas conseguia ir mais longe, sem nunca desistir.
Decidi manter a distância e observá-lo por uns momentos. Por mais que tentasse, nunca conseguia perceber o que estava a pensar. A enorme sombra de fim de tarde tornava a sua figura ainda mais misteriosa e o som do bater das ondas fazia crescer a ansiedade no meu coração. Já não me conseguia conter. Quanto mais o conhecia mais atraída me sentia para a sua existência fascinante, mas a distância entre nós parecia crescer ainda mais.
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6 de dezembro de 2017

Devaneios

Deixa-me estudar cada milímetro do teu ser. Cada reacção, cada resposta, cada olhar. Deixa-me perder na imensidão da vasta tua pele, decifrar cada tom dos teus olhos, decorar o cheiro do teu cabelo e as suas formas indomáveis e ouvir cada nota da tua voz. Deixa-me fazer do bater do teu coração o meu respirar. Deixa-me invadir os teus pensamentos e tomar, aos poucos, a tua consciência.
Quero que me olhes sem medo e sem hesitação. Agora sou eu e tu. Só temos o agora.
Amanhã, se sair antes de acordares, lembrar-te-ás de mim ou tornar-me-ei numa memória, escondida bem no fundo da tua mente? Daquelas memórias esbatidas que se confundem com sonhos…
Enquanto a luz não se apaga e o dia não morre, deixa-me estar ao teu lado. Enquanto tudo é novo e interessante vamos avançando, sem medo do desconhecido. Assim se mata a solidão que outrora nos consumiu.

Caminhando sem rumo chegamos à rota de uma nova descoberta. Uma existência desconhecida que nos desorienta. Será amor, será loucura?
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