Um segundo passa. Mais um dia que chega ao fim e
com ele, extingue-se também uma chama. Uma vida chega ao fim. Tudo vês e nada
fazes; estás apático, insensível. Por preguiça, talvez, ignoras o choro do teu
irmão que sofre e prossegues a tua vida, indiferente.
“Não é que seja egoísta”, pensas tu enquanto
partilhas notícias sobre desgraças alheias. “Que posso eu fazer para mudar as
coisas? Sou só uma pessoa, não tenho poder nenhum” dizes tu, e assim te vais
desculpando pela tua inacção.
Dizem que somos livres, livres para expressar a
nossa opinião, sem medo de represálias. E no entanto, tu vives mudo. Nada sai
da tua boca que não esteja em concordância com os que te rodeiam, afastas-te de
assuntos complicados, sensíveis e por vezes até controversos. Afinal de contas,
a vida é tão curta, porquê falar de coisas chatas ou tristes?
Não só vives calado como não tentas ouvir. Estás
fechado em ti, sem deixar entrar o que afirmas não te interessar. Tentas não
criar ondas, viver sem grandes complicações nem preocupações. Manténs-te fora
dos assuntos dos outros, porque também não queres que metam nos teus. Cada um
tem de resolver os seus problemas, pensas tu.
Agora pensa. Pára por um segundo e pensa. Quem
beneficia com o teu silêncio? Todos temos uma voz, que merece ser ouvida e que
deveria ser usada. E se és livre, porque te concederam essa liberdade, porque
não a usas? Porque te limitas a fazer o que todos fazem, a seguir o caminho que
te dizem que deves seguir, sem reflectir? Porque não usas a tua voz para
defender tantos outros que são silenciados; que por medo, incapacidade ou até
mesmo repressão, não podem usar as deles?
Podes não conseguir fazer muito, podes até achar
que não faz a diferença. Mas todos temos o poder de escutar, dar a nossa atenção
a quem nos pede ajuda e, quando mais não conseguimos fazer, podemos, pelo
menos, transmitir a história de quem sofre aos que nos rodeiam, para que chegue
a quem consiga ajudar.