31 de janeiro de 2018

Janeiro

Sentei-me olhando apaticamente para as redondezas. O sol escondia-se por entre as nuvens, por isso o dia estava longe de ser luminoso. Apesar disso não estava escuro, mas era o suficiente para tudo parecer ter menos cor. Nada me chamava particularmente à atenção e a falta de luz dava a ilusão de ter parado o tempo.
Passavam pessoas caminhando apressadamente, sem poupar um segundo para olhar à sua volta. A sua marcha inexpressiva denuncia a indiferença instalada nas suas mentes e perguntei-me se os seus corações estariam tão sós como as suas figuras. Assim como o calor do sol que hoje insiste em esconder-se, talvez também a ternura que outrora sentiram esteja num lugar oculto, mesmo até da própria vista.
Porque é que hoje tudo parece tão frio?
Desde quando é que nos tornamos máquinas? Máquinas que caminham freneticamente, sem hesitação; que passam mas não vêem. Será a capacidade de empatia que ficou perdida ou a vontade de ser mais do que um amontoado de vontades egoístas e pensamentos egocêntricos?
Cruzamo-nos sem nada dizer e sem trocar qualquer gesto que reconheça a presença do outro; de olhar vidrado e inexpressivo, como se não fossemos mais que bonecos sem vida. Já nem as maiores atrocidades são capazes de captar a nossa atenção, porque tudo se tornou banal e a memória de um acontecimento facilmente é substituída por outro mais recente.
Temos medo de observar calmamente e conhecer de facto; porque é tão fácil ignorar o que desconhecemos e se o passássemos a conhecer teríamos de dar valor. Que faríamos se nos apegássemos e tivéssemos de dispensar parte do nosso tempo a pensar em algo que não nos afecta directamente. Mas quem julgas que sou, a Madre Teresa?!
Talvez esteja na altura de expandir horizontes e olhar para além das nossas redomas, que nos limitam a uma realidade fabricada, que quase acreditamos conseguir controlar, tal é a nossa ilusão. Claro, o desconhecido pode ser assustador, podemos ficar magoados, não conseguimos controlar os resultados; mas sacrificar a nossa curiosidade e a nossa capacidade de criar novos laços é eliminar uma parte importante da nossa humanidade.
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