Sentei-me olhando apaticamente
para as redondezas. O sol escondia-se por entre as nuvens, por isso o dia
estava longe de ser luminoso. Apesar disso não estava escuro, mas era o suficiente
para tudo parecer ter menos cor. Nada me chamava particularmente à atenção e a
falta de luz dava a ilusão de ter parado o tempo.
Passavam pessoas caminhando
apressadamente, sem poupar um segundo para olhar à sua volta. A sua marcha
inexpressiva denuncia a indiferença instalada nas suas mentes e perguntei-me se
os seus corações estariam tão sós como as suas figuras. Assim como o calor do
sol que hoje insiste em esconder-se, talvez também a ternura que outrora
sentiram esteja num lugar oculto, mesmo até da própria vista.
Porque é que hoje tudo parece tão
frio?
Desde quando é que nos tornamos
máquinas? Máquinas que caminham freneticamente, sem hesitação; que passam mas
não vêem. Será a capacidade de empatia que ficou perdida ou a vontade de ser
mais do que um amontoado de vontades egoístas e pensamentos egocêntricos?
Cruzamo-nos sem nada dizer e sem
trocar qualquer gesto que reconheça a presença do outro; de olhar vidrado e
inexpressivo, como se não fossemos mais que bonecos sem vida. Já nem as maiores
atrocidades são capazes de captar a nossa atenção, porque tudo se tornou banal
e a memória de um acontecimento facilmente é substituída por outro mais
recente.
Temos medo de observar calmamente
e conhecer de facto; porque é tão fácil ignorar o que desconhecemos e se o
passássemos a conhecer teríamos de dar valor. Que faríamos se nos apegássemos e
tivéssemos de dispensar parte do nosso tempo a pensar em algo que não nos
afecta directamente. Mas quem julgas que sou, a Madre Teresa?!
Talvez esteja na altura de expandir
horizontes e olhar para além das nossas redomas, que nos limitam a uma realidade
fabricada, que quase acreditamos conseguir controlar, tal é a nossa ilusão.
Claro, o desconhecido pode ser assustador, podemos ficar magoados, não
conseguimos controlar os resultados; mas sacrificar a nossa curiosidade e a
nossa capacidade de criar novos laços é eliminar uma parte importante da nossa humanidade.
0 comentários:
Enviar um comentário