26 de janeiro de 2018

Suspiro

Olhei para a praia e lá estava ele. Calmo, impassível, imperturbável. Os seus olhos transmitiam uma serenidade que não compreendia. Por momentos deixei-me perder nos seus olhos, esquecendo-me da razão que me trouxera ali, como se flutuasse num vasto oceano.
Só ele tinha a capacidade de me fazer sentir assim, perdida no nada, despojada de preocupações e pensamentos complexos. Ah, que ser humano intrigante! A força da sua calma nunca deixava de me surpreender. Não era uma calma estática, passiva e apática, como se quisesse ignorar as coisas à sua volta. Não! Era o profundo conhecimento do que o rodeava que lhe permitia encarar o mundo sem medo e sem rodeios, mas sempre de forma serena. Sem pressas conseguia ir mais longe, sem nunca desistir.
Decidi manter a distância e observá-lo por uns momentos. Por mais que tentasse, nunca conseguia perceber o que estava a pensar. A enorme sombra de fim de tarde tornava a sua figura ainda mais misteriosa e o som do bater das ondas fazia crescer a ansiedade no meu coração. Já não me conseguia conter. Quanto mais o conhecia mais atraída me sentia para a sua existência fascinante, mas a distância entre nós parecia crescer ainda mais.

Sentei-me e tentei esvaziar o meu interior. Faziam-me falta momentos de silêncio, em que conseguisse reparar realmente no que está à minha volta. Usar apenas os meus sentidos, sem projectar as ideias e emoções do quotidiano. Carregamos tantos pesos connosco que não nos deixam apreciar a beleza que nos rodeia. Queria viver cada momento com sinceridade e sentir-me grata por cada pequena coisa que me foi concedida.
Estendi o braço e toquei levemente na areia. Senti os pequenos grãos a deslizar por entre os meus dedos e deixei-me entreter com a sensação. Não corria vento, mas a humidade deixava uma sensação de frescura na minha cara. Passei um dia tão atarefado que todas estas coisas me pareciam acalmar. Durante uns minutos esqueci-me que ele também ali estava, não muito longe de mim.
Eram raras as ocasiões em que a sua existência não reclamava a minha total atenção. Não sabia como fazia, mas ele tinha o poder de me fazer focar nele. Por vezes gostava de o conseguir ignorar, e largar todos os meus pensamentos sobre ele num suspiro. À medida que a minha ânsia por controlo vai crescendo, cresce também o que sinto por ele e o conflito interno aumenta. Mas a minha impaciência não me desvia dos meus objectivos. Um dia sentar-nos-emos lado a lado, contemplando a mesma paisagem e partilhando os mesmos sentimentos.
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