11 de outubro de 2011

Aurora

Acordei num lugar desconhecido. Estava escuro e deixei-me guiar por uma ténue luz que espreitava pelas brechas de uma porta. Abri a porta lentamente e clarão de luz me cegou. Depois de me habituar à claridade vi que estava num pequeno telheiro, à entrada de uma casa. Havia um bonito banco de jardim. Branco, muito simples. Mais à frente uma pequena fonte e alguns canteiros, decorados com umas tímidas flores multicolores. No ar pairava uma suave brisa que me convidava a dar um passeio.
Após ter caminhado durante uns minutos encontrei uns campos de relva verdejante, o que despertou em mim uma vontade de rebolar nela. Estava completamente perdida pois aquele lugar era desconhecido para mim, mas havia algo que me fazia sentir uma calma que não conseguia explicar. O sol brilhava mais do que em qualquer outro lugar, mas de forma suave. A brisa fazia o meu cabelo balançar e, à sua passagem, as coisas descreviam melodiosos movimentos, gentilmente engrandecidos pelo canto dos pássaros. Tudo ali parecia perfeito, mas ao passar algum tempo o sentimento de confusão que me acompanhava transformou-se em angústia. Embora o lugar parecesse mágico estava sozinha e perdida. Como qualquer outro ser humano era uma criatura social e necessitava de contacto com outras pessoas. Precisava de alguém para me indicar o caminho...
Ao cair a noite, reparei que havia duas luas. Durante a noite, tudo naquele lugar parecia simétrico como se um espelho duplicasse a imagem, criando dois retratos perfeitos de um mesmo calmo e misterioso lugar. A luz da lua era reflectida por um pequeno lago de forma tão sublime que pareciam emergir dele pequenos místicos raios de luz. A magia que havia agora naquele lugar escondia um segredo que ainda não conseguia desvendar. Uma pequena estrada ramificava-se em vários caminhos, desaparecendo no horizonte.
A ausência de vida animal mortificava-me. Como era possível que um lugar tão belo não fosse habitado por pequenas criaturas?! Isto levou-me a reflectir um pouco sobre os meus sonhos e projectos. Investimos tanto tempo a construir algo que depois fica desabitado, tal como aquele lugar. Todas aquelas ideias que pareciam muito interessantes no inicio mas que com o tempo são esquecidas e deixadas ao abandono. Todas as relações que começam com grandes promessas e que nos esforçamos por mostrar perfeitas, mas que acabam por morrer lentamente sem as pequenas atenções dos dias passados. Assim, tal como todas estas coisas aquele local parecia ter sido grandioso em tempos, mas aos tempos foi deixando de ser tratado. À medida que me afastava da moradia, a relva ficava cada vez maior e a vegetação tornava-se cada vez mais indisciplinada e selvagem.
Na manhã seguinte, depois de uma analise mais cuidada, apercebi-me que o terreno apenas era cuidado nas partes mais exteriores, de modo a que quem passasse não se apercebesse da situação. No entanto, à medida que penetrávamos no interior do terreno a situação tornava-se cada vez mais desleixada e caótica. As ervas cresciam descontroladamente e asfixiavam as pequenas flores e umas irreverentes trepadeiras balançavam-se por entre as árvores. Tudo isto criava uma elaborada rede com malha irregular e bastante curta. Atravessar aquela floresta parecia uma missão impossível, mas estava decidida a fazê-lo e a conquistar vitoriosamente o interior.

Depois de passar várias horas a tentar desbravar aquela floresta e de ter aberto um pequeno trilho, aventurei-me até ao seu interior. Ao chegar ao fim do trilho, pude avistar uma estranha claridade. No meio daquela floresta indomável estava o jardim mais lindo que alguma vez vi. Era o único sítio naquele terreno onde existiam vestígios de vida animal. As mais variadas espécies de pássaros esvoaçavam de um lado para o outro e pequenos peixes saltitavam no pequeno riacho que ali nascia. A sensação que aquele lugar me transmitia criava uma harmonia perfeita na minha cabeça e tudo me parecia transportar para um estado de alegria efusiva. Se existia um sitio tão belo naquele terreno, porque é que era tão difícil chegar até ele? E porque esconderiam tamanha beleza no meio daquele caos infernal? Até hoje continuo sem certezas em relação a este assunto, mas tenho muitas hipóteses... Uma coisa é certa, nunca esquecerei aquele lugar de beleza e mistério ímpares.
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