Olhares desconfiados, comentários abafados e sinais disfarçados.
Assim se dispõe a sala à medida que entro, perfeitamente consciente de que
todos os meus movimentos, gestos e palavras iriam ser julgados. Toda a gente
naquela sala, sem excepção, me iria avaliar dos pés até à ponta dos meus
cabelos. Apesar da minha clara evolução e dos meus vários sinais que
prenunciavam que estava finalmente pronta para o que se iria passar a seguir, o
cepticismo geral ainda não tinha desaparecido completamente. Agora mais do que
nunca, sentia que alguns preconceitos e estereótipos nunca iriam desertar inteiramente
da mente das pessoas. Muitas eram as condicionantes vistas como impedimento ao
meu sucesso pela sociedade, e tudo o que podia fazer era esforçar-me ainda mais
e esperar ver o meu trabalho devidamente reconhecido, não por ambicionar fama
ou algo semelhante mas por crescer cada vez mais em mim a necessidade de sentir
que o meu trabalho era valorizado e, como tal, era importante fazê-lo e fazê-lo
bem.
Às vezes, por uns breves momentos, imaginava como seria se eu
simplesmente deixasse de me preocupar com tudo isso. Se desistisse de fazer a
diferença e vagueasse pelo mundo com uma total indiferença pelos problemas dos
outros, pelas suas opiniões e sem qualquer interesse de me aperfeiçoar
constantemente. Uma vez tentei fazer isso, mas a falta de rumos e de objectivos
conduziu-me a um enorme desespero e a uma completa ausência de sentimentos que
causava em mim uma agonia tal, que qualquer interacção com outras pessoas me
deixava à beira de desmaiar.
Apesar de tudo sabia que agora não era o momento para desistir e
tudo o que podia fazer era respirar fundo e preparar-me para o que aí vinha.
Quem sabe este não será o início de uma nova era, para mim e para todos os
outros que virão depois de mim?
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