24 de julho de 2017

Visão em cinzento

                Quem és tu, visão, que me assombra o pensamento? Não és estranho, mas também não posso dizer que alguma vez te tenha conhecido. A nossa relação de carácter inexistente descreve aquilo que és para mim, uma incógnita. O teu rosto não é belo nem marcante, as tuas roupas banais, a tua presença imperceptível. O que vi em ti que me despertou a atenção?
            Será isso que me fascina? Se saciar a minha curiosidade, perderei todo o interesse?

            As minhas palavras são como armas que escolho cuidadosamente e que vou afiando, preparando-me para a batalha. Coloco a minha razão acima de tudo. Achei que tinha total controlo da minha mente, mas tu entraste assim, desprezando todas as minhas restrições e barreiras. Ah, que coisa curiosa esta, que chamam sentimentos! Pensava eu ser sã, talvez seja afinal louca.
            Bastou um segundo, um olhar que me deixou paralisada e me fez questionar se algum dia tinha visto alguém assim. O teu olhar é directo, nada esconde, contudo, torna-se numa fortaleza impenetrável dos teus pensamentos. Alguém que de tão simples se fez tanto e se tornou numa tão grande constante nos meus pensamentos. Terá sido como dizem, o coração viu aquilo que os olhos não querem ver? O que me atrai para ti não é concreto nem é físico, não o posso definir por palavras. Ainda assim é incompleto, tal como o meu conhecimento de ti. As aparências são enganadoras, passageiras, por isso nunca confiei nelas. Confio sim naquilo que não me trai e que permanece, ainda que eu deixe de existir.

Deixa-me olhar para as tuas ideias, testemunhar os teus princípios e testar os teus valores. De onde vieste e para onde vais? Quando acordas, o que vês? A minha visão de ti não é mais que uma miragem, fumo cinzento que me turva a visão e me bloqueia o pensamento. Como era fácil a minha vida, antes de me deixares assim, cheia de perguntas para as quais só tu tens a resposta.
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