Caminhava sem rumo numa abafada
tarde de verão. Os meus cabelos balanceavam com a leve brisa que não conseguia
afastar a sensação de calor. O som das pequenas folhas a arrastarem-se pelo
chão fez-me virar para trás. Apesar de saber que não estava ninguém ali, o meu
corpo reagiu instintivamente deixando-se levar por memórias de um tempo que não
voltará.
Por momentos lembrei-me de quando
aparecias assim, sem avisar e sem anunciares a tua presença. Sabias sempre onde
me encontrar como se me conhecesses desde sempre, e no entanto eramos pouco
mais que dois estranhos. Já eu nunca soube nada sobre ti. Falávamos de tanta coisa,
mas nunca me revelaste nada sobre a tua vida pessoal. Não sabia de onde eras, o
que fazias ou que relações tinhas. Sempre foste um mistério para mim, mas
lias-me como um livro aberto e revelei-te até os meus segredos mais profundos.
Apesar disso sabia que nunca me conseguiria aproximar do teu íntimo. Queria
afastar o véu que usavas para esconder o que sentias e ver dentro do teu
coração, mas mesmo estando a um cabelo de distância eu sabia que não te
conseguia tocar.
Agora apenas podia olhar para trás
com um misto de saudade e confusão. Confusão por não perceber como me poderia
ter envolvido tanto com uma pessoa sobre a qual não sabia nada. Não por
pensar que fosse má pessoa, mas por desconhecer as suas verdadeiras
intenções. Desapareceu da mesma maneira que tinha aparecido, sem anunciar e sem
me dar tempo para me preparar e me despedir. Talvez não gostasse de despedidas.
Sempre agiu como quis, sem ligar muito às opiniões dos outros e sem se prender
a noções tradicionais de conduta.
Que segredos esconderia por detrás daquela
fachada de uma pessoa excessivamente livre e desprendida, como se nada fosse
capaz de mover o seu coração? Nunca o vi desejar nada abertamente, agia como se
nada conseguisse exercer nele uma atração suficiente para a querer possuir. E
ainda assim, conseguia detectar uns vestígios de tristeza no seu olhar sempre
que olhava para mim, mesmo quando sorria. Era como se os seus olhos me dessem
pistas das palavras que ele não tinha coragem de pronunciar.
Tudo isso estava agora distante, levado para longe pelo
vento que insiste em passar. Talvez um dia ele volte no meio da névoa, numa
manhã de inverno, como se tivesse sido criado pelas misteriosas nuvens brancas que
esfumaçam a paisagem…
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