1 de agosto de 2017

Passagens de um romeiro

            Caminhava sem rumo numa abafada tarde de verão. Os meus cabelos balanceavam com a leve brisa que não conseguia afastar a sensação de calor. O som das pequenas folhas a arrastarem-se pelo chão fez-me virar para trás. Apesar de saber que não estava ninguém ali, o meu corpo reagiu instintivamente deixando-se levar por memórias de um tempo que não voltará.
            Por momentos lembrei-me de quando aparecias assim, sem avisar e sem anunciares a tua presença. Sabias sempre onde me encontrar como se me conhecesses desde sempre, e no entanto eramos pouco mais que dois estranhos. Já eu nunca soube nada sobre ti. Falávamos de tanta coisa, mas nunca me revelaste nada sobre a tua vida pessoal. Não sabia de onde eras, o que fazias ou que relações tinhas. Sempre foste um mistério para mim, mas lias-me como um livro aberto e revelei-te até os meus segredos mais profundos. Apesar disso sabia que nunca me conseguiria aproximar do teu íntimo. Queria afastar o véu que usavas para esconder o que sentias e ver dentro do teu coração, mas mesmo estando a um cabelo de distância eu sabia que não te conseguia tocar.
            Agora apenas podia olhar para trás com um misto de saudade e confusão. Confusão por não perceber como me poderia ter envolvido tanto com uma pessoa sobre a qual não sabia nada. Não por pensar que fosse má pessoa, mas por desconhecer as suas verdadeiras intenções. Desapareceu da mesma maneira que tinha aparecido, sem anunciar e sem me dar tempo para me preparar e me despedir. Talvez não gostasse de despedidas. Sempre agiu como quis, sem ligar muito às opiniões dos outros e sem se prender a noções tradicionais de conduta.
            Que segredos esconderia por detrás daquela fachada de uma pessoa excessivamente livre e desprendida, como se nada fosse capaz de mover o seu coração? Nunca o vi desejar nada abertamente, agia como se nada conseguisse exercer nele uma atração suficiente para a querer possuir. E ainda assim, conseguia detectar uns vestígios de tristeza no seu olhar sempre que olhava para mim, mesmo quando sorria. Era como se os seus olhos me dessem pistas das palavras que ele não tinha coragem de pronunciar.

Tudo isso estava agora distante, levado para longe pelo vento que insiste em passar. Talvez um dia ele volte no meio da névoa, numa manhã de inverno, como se tivesse sido criado pelas misteriosas nuvens brancas que esfumaçam a paisagem…
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