A mente humana sempre agiu segundo
determinados padrões socialmente impostos. Assim, por mais que tentemos, é
quase impossível agir ignorando certas influências externas. Até aqueles que
dizem não seguir as tendências feitas para as massas estão condicionados à
oferta que o mercado lhes dá, que tende a ser cada vez mais restrita e
semelhante. Estamos a assistir a uma globalização cultural que nos conduz a uma
sociedade pré-fabricada e homogénea, onde não há lugar para diversidade, apenas
uma única massa unificada e acrítica.
A procura de identidade outrora motivada pelo
individualismo desvaneceu na necessidade de pertença de migrantes construindo
um futuro melhor. Tornamos a expressão individual e a identidade própria numa
forma actual de caça às bruxas, que se recusam a ser moldadas segundo as normas
limitadoras e destrutivas. À medida que a homogeneização da sociedade se torna
cada vez mais evidente, a capacidade crítica e a vontade própria definham e são
progressivamente substituídas por submissão e aceitação das propostas
desenhadas para nos ludibriar e afastar das realidades ocultas.
O histerismo e correria frenética são
incentivados para manter a máquina capitalista em funcionamento. Bens e
materiais circulam a uma velocidade alucinante, voando de mão em mão, tudo para
fazer aumentar uns números. Tudo gira à volta de números, horas de esforço e
dedicação reduzidas a simples números. Até a nossa existência pode ser
quantificada! Tudo é competição; o outro foi esquecido e deixado para trás, de
preferência imobilizado, para que não me consiga fazer frente. Valerá realmente
a pena aquilo a que buscamos? Será que sabemos sequer qual o nosso objectivo?
Alguma vez pensaram nos que ficaram para trás para que vocês pudessem ter o que
têm? Debatemo-nos por ver mais uns dígitos, novamente números, escritos numa
folha de papel. Somos movidos por uma enorme ansia, uma ambição insaciável,
queremos ter sempre mais e mais. O nosso egoísmo cega-nos, deixa-nos frios, insensíveis,
esquecemos aquilo que deveria ser o nosso objectivo último e deixamo-nos guiar
por caminhos sinuosos de prazer e satisfação temporários e superficiais.
Perdemos a nossa direcção, deslocamo-nos da
nossa órbita e as consequências já começam a sentir-se embora a maioria tenda a
ignora-las. Muitos vagueiam perdidos, despojados de dignidade e de qualquer
réstia de humanidade que lhes foi roubada por implacáveis figuras sedentas de
poder. Os seus desfigurados rostos transfiguram a violência e desprezo quotidianos
que lhe maceram o coração e lhes corrompem a alma, arrastando-os para uma
espiral de desespero infindável. Quem tem a barriga cheia deleita-se,
esquecendo-se que para que o seu egoísmo fosse satisfeito muitos definhavam esfomeados.
A Constituição dos Direitos Humanos diz que todos temos os mesmos direitos, mas
enquanto que uns têm tudo e até demais, há outros sem nada... Onde está a tão
aclamada igualdade? O fosso torna-se cada vez maior e o retrocesso cada vez
mais difícil. Muitas vozes se erguem, mas as acções são poucas e estas pouco
podem contra a ordem já estabelecida do mundo. Os valores e princípios outrora
defendidos e respeitados parecem dissipar-se numa densa atmosfera
desorientadora de interesses. Haverá esperança possível para tal atrocidade?
Como poderá o mundo libertar-se destes hábitos que o condenam à
auto-destruição? Deixamos de SER para simplesmente habitarmos um corpo débil,
inútil, sem qualquer réstia de consciência. Agimos maquinalmente rumo a um
objectivo turvo que nos ilude. As marcas da nossa passagem são ignoradas e
algumas delas encobridas, para evitar que os meios desumanos que usamos para
melhorar o nosso conforto aparente possam ser alvo de debate. As réstias de consciência
que temos, causam-nos uma incomodativa insegurança, por sabermos que nos
sustentamos às custas de outrem e que, como tal, não cumprimos as normas
estipuladas. No entanto, enquanto houverem mentes esclarecidas, haverá sempre a
possibilidade de ruptura com estes decadentes hábitos e escassez de princípios.
Mudarão estas palavras alguma coisa? Perceberá
alguém que um simples acto poderá afectar muitas mais pessoas do que
imaginamos? Conseguiremos algum dia fazer jus à palavra IGUALDADE?
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