11 de agosto de 2011

Consumismo

A mente humana sempre agiu segundo determinados padrões socialmente impostos. Assim, por mais que tentemos, é quase impossível agir ignorando certas influências externas. Até aqueles que dizem não seguir as tendências feitas para as massas estão condicionados à oferta que o mercado lhes dá, que tende a ser cada vez mais restrita e semelhante. Estamos a assistir a uma globalização cultural que nos conduz a uma sociedade pré-fabricada e homogénea, onde não há lugar para diversidade, apenas uma única massa unificada e acrítica.
 A procura de identidade outrora motivada pelo individualismo desvaneceu na necessidade de pertença de migrantes construindo um futuro melhor. Tornamos a expressão individual e a identidade própria numa forma actual de caça às bruxas, que se recusam a ser moldadas segundo as normas limitadoras e destrutivas. À medida que a homogeneização da sociedade se torna cada vez mais evidente, a capacidade crítica e a vontade própria definham e são progressivamente substituídas por submissão e aceitação das propostas desenhadas para nos ludibriar e afastar das realidades ocultas.
 O histerismo e correria frenética são incentivados para manter a máquina capitalista em funcionamento. Bens e materiais circulam a uma velocidade alucinante, voando de mão em mão, tudo para fazer aumentar uns números. Tudo gira à volta de números, horas de esforço e dedicação reduzidas a simples números. Até a nossa existência pode ser quantificada! Tudo é competição; o outro foi esquecido e deixado para trás, de preferência imobilizado, para que não me consiga fazer frente. Valerá realmente a pena aquilo a que buscamos? Será que sabemos sequer qual o nosso objectivo? Alguma vez pensaram nos que ficaram para trás para que vocês pudessem ter o que têm? Debatemo-nos por ver mais uns dígitos, novamente números, escritos numa folha de papel. Somos movidos por uma enorme ansia, uma ambição insaciável, queremos ter sempre mais e mais. O nosso egoísmo cega-nos, deixa-nos frios, insensíveis, esquecemos aquilo que deveria ser o nosso objectivo último e deixamo-nos guiar por caminhos sinuosos de prazer e satisfação temporários e superficiais.
 Perdemos a nossa direcção, deslocamo-nos da nossa órbita e as consequências já começam a sentir-se embora a maioria tenda a ignora-las. Muitos vagueiam perdidos, despojados de dignidade e de qualquer réstia de humanidade que lhes foi roubada por implacáveis figuras sedentas de poder. Os seus desfigurados rostos transfiguram a violência e desprezo quotidianos que lhe maceram o coração e lhes corrompem a alma, arrastando-os para uma espiral de desespero infindável. Quem tem a barriga cheia deleita-se, esquecendo-se que para que o seu egoísmo fosse satisfeito muitos definhavam esfomeados. A Constituição dos Direitos Humanos diz que todos temos os mesmos direitos, mas enquanto que uns têm tudo e até demais, há outros sem nada... Onde está a tão aclamada igualdade? O fosso torna-se cada vez maior e o retrocesso cada vez mais difícil. Muitas vozes se erguem, mas as acções são poucas e estas pouco podem contra a ordem já estabelecida do mundo. Os valores e princípios outrora defendidos e respeitados parecem dissipar-se numa densa atmosfera desorientadora de interesses. Haverá esperança possível para tal atrocidade? Como poderá o mundo libertar-se destes hábitos que o condenam à auto-destruição? Deixamos de SER para simplesmente habitarmos um corpo débil, inútil, sem qualquer réstia de consciência. Agimos maquinalmente rumo a um objectivo turvo que nos ilude. As marcas da nossa passagem são ignoradas e algumas delas encobridas, para evitar que os meios desumanos que usamos para melhorar o nosso conforto aparente possam ser alvo de debate. As réstias de consciência que temos, causam-nos uma incomodativa insegurança, por sabermos que nos sustentamos às custas de outrem e que, como tal, não cumprimos as normas estipuladas. No entanto, enquanto houverem mentes esclarecidas, haverá sempre a possibilidade de ruptura com estes decadentes hábitos e escassez de princípios.

 Mudarão estas palavras alguma coisa? Perceberá alguém que um simples acto poderá afectar muitas mais pessoas do que imaginamos? Conseguiremos algum dia fazer jus à palavra IGUALDADE?
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