Mais uma viagem que chega ao fim. Mais
um período de descanso e puro lazer que finda e com ele findam também a calma e
a despreocupação que este trouxe. Assim que chego dá-se na minha mente um
enorme choque. As felizes recordações das férias varrem-se da minha cabeça e
dão lugar a preocupações, problemas e saudades daquele pôr do sol. A adrenalina
que sentia na descoberta de novos lugares e pessoas transforma-se lentamente em
monotonia por voltar à velha rotina de sempre. Os grupos dividem-se e a folia
de estarmos juntos dá lugar à solidão que lentamente se instala dentro de mim,
como se soubesse que voltaria e que aquele lugar sempre estivera ali à minha
espera. As coloridas luzes depressa dão lugar a misteriosas sombras e as
melodias que ecoavam em todos os cantos da minha mente não passam agora de ecos
gritantes de desespero, causado pelo medo de um mundo que ambicionei deixar.
Fugi desenfreadamente de uma realidade
que ameaçava conduzir-me a loucura, em busca de paz de alma. Tentaram calar-me,
ignoraram as minhas suplicas e fizeram tudo para quebrar a minha vontade. Mas
não desisti de criar lugar para mim e outros, que como eu não se deixam dominar
pelas loucas tendências desta sociedade actual. Tanto lutei que mesmo os que
outrora me apoiavam agora se afastavam de mim, à espera de me ver falhar.
Apesar de tudo isto não desisti, e cheguei vitorioso ao meu destino final onde
todas estas coisas não passavam de rumores e podia finalmente respirar.
Olhei em volta e apreciei o cenário. As
negras torres de controlo já não faziam mais parte da minha linha de visão e
podia finalmente apreciar livremente um mundo que muitos se esqueceram que é de
todos. Tudo ali era mais puro e verdadeiro. Até o sol parecia brilhar mais intensamente
naquela terra onde tudo era novo e ninguém me conhecia. Podia escrever a minha
própria história como quisesse. Ali, era eu finalmente quem decidia. Ao fim de
tantos meses sentia-me livre, ninguém mais senão eu poderia ditar onde iria, o
que comeria ou o que vestiria. Apenas eu poderia ditar o meu destino a partir
daquele momento!
Quando me senti seguro naquele lugar e
achei que podia finalmente relaxar e esquecer a triste realidade que deixara,
sacudi todas os medos e preocupações das ainda pesadas e tristes roupas formais
de trabalho e vesti umas leves e coloridas roupas, com as quais rumei ao centro
daquela desconhecida cidade.
Ao chegar olhei em volta e observei os
rumores dos turistas descobrindo, tal como eu, aquele lugar desconhecido. Os
comerciantes arrogantemente ignoravam os esforços que os turistas faziam para
transpor quais as suas necessidades das suas mil e uma línguas para aquela seca
e quente língua. Deixei o sol tocar-me por uns momentos enquanto me passeava
por aquelas ruas agitadas, mas depressa me deixei atingir pelo calor. Decidi
então procurar abrigo à sombra de uma enorme árvore de um jardim, que alguém
plantou para que um dia alguém como eu se pudesse refugiar junto a ela. Os tons
quentes das pedras das casas quase deixavam de ser nítidos por entre as verdes
folhas das frondosas árvores e os pequenos arbustos que teimavam aflorar do
fértil solo. Fechei os olhos e escutei por momentos o som da água que corria
timidamente numa fonte a uns metros dali. Um pequeno grupo acercou-se desta
para se refrescar e restabelecer forças após uma longa caminhada. Apesar do
notório cansaço, todos exibiam um radiante sorriso na face e tinham atitudes
cordiais e de mutuo respeito uns para com os outros. Admirava a sua capacidade
de se manterem unidos como grupo, como eu nunca conseguira fazer.
Inspirado pelas atitudes daquele
simpático grupo, decidi partilhar o meu lanche com um esfarrapado pedinte que
jazia junto ao museu de onde agora saía. A minha visita tinha sido
desanimadora. A arte já não me entusiasmava tanto como antes, já não me perdia
a observar cada quadro lentamente, a perceber o porquê de cada forma, de cada
cor, de cada traço e qual o seu contributo para o meu estado de fascínio e puro
êxtase. Talvez devesse começar a viver as coisas e a sentir a sua essência como
fazia antes. A minha luta pelos meus ideais deixou-me cansado e apenas
conseguia divagar por aquele enorme desconhecido, em busca de estímulos. Passar
despercebido já não me interessava, a maioria limitava-se a seguir indicações e
a deixar que os outros escolhessem o seu rumo, mas não eu. Eu queria fazer
aquilo que me fosse mais significativo, queria estar mais perto da acção que
ali se passava, queria traçar o rumo da minha própria história!
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