2 de setembro de 2011

Libertação (pt. 3)

Agora mais do que nunca apercebia-me de que nunca fora muito bom a planear. Decidira mudar de vida e corrigir os erros do passado, mas apenas pensara em afastar-me dos potenciais causadores do problema. O que iria fazer dali em diante e onde ainda estava por decidir. Tudo estava em aberto e não tinha a certeza se teria tantas possibilidades quanto isso. Até ali nunca tinha tomado nenhuma grande decisão na minha vida. Limitava-me a deixar os outros escolher por mim ou simplesmente não decidia e via como corria. Depois de tomar consciência dessa realidade pude realmente perceber o quão custoso era escolher... Sentia-me finalmente livre porque podia escolher qual o rumo que queria dar à minha vida, mas amargurado por não o saber nem conseguir fazer, visto que desperdiçara a minha liberdade até então.
Tudo tinha um sabor diferente agora... Tal como as crianças, olhava para o mundo como se não o conhecesse, redescobrindo-o. Buscava um novo sentido para tudo, absorvia o máximo que conseguia de cada coisa na esperança de encontrar algo me fizesse realmente feliz. Não podia pensar no que gostava pois nunca tive gostos próprios, limitava-me a assimilar os dos demais. O que perdera ao longo de todos aqueles anos era incalculável e irrecuperável.

Abri um dos meus mais fieis companheiros, que me acompanhava desde sempre. Sempre encontrei paz nos livros... Permitiram-me conhecer meio mundo, apaixonar-me vezes sem conta e debater os mais variados assuntos com os mais famosos filósofos. As suas paginas estavam amarelecidas pois pertenceram ao meu estimado avô. Deleitava-me as folhear aquelas páginas que emanavam um curioso cheiro... A arte do escritor prendia-me durante horas, alheado do mundo, perdido numa história que não era a minha. Admirava a sua extraordinária capacidade de criar imagens tão nítidas, descrições tão perfeitas de realidades que os meus olhos nunca poderiam tocar. O meu apartamento estava agora vazio, mas Eça nunca me deixava só e enchia a minha triste realidade com belas mulheres, paisagens encantadoras e bons homens que, como eu, se tinham desviado da rota correcta.
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