Agora mais do que nunca apercebia-me de que nunca fora
muito bom a planear. Decidira mudar de vida e corrigir os erros do passado, mas
apenas pensara em afastar-me dos potenciais causadores do problema. O que iria
fazer dali em diante e onde ainda estava por decidir. Tudo estava em aberto e
não tinha a certeza se teria tantas possibilidades quanto isso. Até ali nunca
tinha tomado nenhuma grande decisão na minha vida. Limitava-me a deixar os
outros escolher por mim ou simplesmente não decidia e via como corria. Depois
de tomar consciência dessa realidade pude realmente perceber o quão custoso era
escolher... Sentia-me finalmente livre porque podia escolher qual o rumo que
queria dar à minha vida, mas amargurado por não o saber nem conseguir fazer,
visto que desperdiçara a minha liberdade até então.
Tudo tinha um sabor diferente agora... Tal como as
crianças, olhava para o mundo como se não o conhecesse, redescobrindo-o.
Buscava um novo sentido para tudo, absorvia o máximo que conseguia de cada
coisa na esperança de encontrar algo me fizesse realmente feliz. Não podia
pensar no que gostava pois nunca tive gostos próprios, limitava-me a assimilar
os dos demais. O que perdera ao longo de todos aqueles anos era incalculável e
irrecuperável.
Abri um dos meus mais fieis companheiros, que me
acompanhava desde sempre. Sempre encontrei paz nos livros... Permitiram-me
conhecer meio mundo, apaixonar-me vezes sem conta e debater os mais variados
assuntos com os mais famosos filósofos. As suas paginas estavam amarelecidas pois
pertenceram ao meu estimado avô. Deleitava-me as folhear aquelas páginas que
emanavam um curioso cheiro... A arte do escritor prendia-me durante horas,
alheado do mundo, perdido numa história que não era a minha. Admirava a sua
extraordinária capacidade de criar imagens tão nítidas, descrições tão
perfeitas de realidades que os meus olhos nunca poderiam tocar. O meu
apartamento estava agora vazio, mas Eça nunca me deixava só e enchia a minha
triste realidade com belas mulheres, paisagens encantadoras e bons homens que,
como eu, se tinham desviado da rota correcta.
0 comentários:
Enviar um comentário