2 de setembro de 2011

Libertação (pt. 4)

A atmosfera que me rodeava era diferente, sabia que tinha chegado a um lugar de beleza e mistério ímpares. Ali podia finalmente respirar fundo, sem medo, pois estava livre de forças opressoras. O tempo parecia ter paralisado naquela bela vila, escudada por serras e beijada pelo mar criando o berço de todos os sonhos. Imponentes castelos erguiam-se das serras como se a elas pertencessem e a flora única no mundo era suavemente acariciada por aquele microclima intrigante. Espaços repletos de histórias e segredos, que nos transportavam para tempos remotos...
Antigos caminhos que traçavam as rotas dos nossos antepassados, as encruzilhadas dos seus romances quiçá... Sintra era o lugar escolhido para me fixar em busca da paz que Lisboa não me soubera dar. Esgotara a minha mente com pensamentos e teorias demasiado intelectuais para algum dia as por em prática e decidira dedicar-me àquilo que em tempos tinha sido um passatempo e que agora se tornaria a minha actividade. Usaria aquela actividade não só para me sustentar mas também para exorcizar os fantasmas do meu passado. Havia coisas que nunca iria ter coragem para dizer mas poderia usar todos esses sentimentos engarrafados para dar vida aquelas pequenas criações que só eu sabia fazer.

Aquela vila trouxera-me memórias do meu falecido avô e da paixão que ele me transmitiu... Passei horas a observá-lo, a aprender como ele delicadamente moldava e dava vida a pequenos pedaços de madeira, transformando-os em réplicas dos heróis do seu mundo. A sua mestria quer a esculpir as pequenas formas, quer a dar-lhes a cor que as tornaria mágicas era impressionante. Apenas eu poderia assegurar que o seu legado permanecia vivo, pois fora o seu único aprendiz. Contudo havia algo que não poderia ter aprendido com ele, a minha capacidade criativa superava a do meu avô em grande escala. Qualquer fosse o pedido, por mais disparatado que pudesse soar, ganhava forma nas minha mãos de forma tão genial que creio que até ele ficava surpreendido. Nunca soube muito bem como o fazia, só sabia que agora chegava a hora de fazer o que realmente gostava.
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