O sol espreitava pela minha janela, no seu tímido jeito
primaveril, trazendo consigo a boa-disposição que eu precisava para dar início
ao meu primeiro dia de trabalho. Depois de passar meses a contactar todos os
antigos clientes do meu avô e a procurar apoios para o meu projecto, finalmente
conseguira abrir a minha pequena loja de artesanato. Agarrei nas últimas peças
que fizera e nos meus utensílios e saí da minha casa, situada numa pacata zona
da vila. A calma que agora respirava nestes frescos ares da serra ajudara na
minha recuperação. Considerava-me agora curado, e pronto para agarrar novos
desafios.
Apesar de ainda ser cedo já se viam alguns locais a
deslocar-se para os seus empregos. Também alguns turistas, que se aventuravam
sozinhos pela vila, à descoberta dos seus muitos segredos... Instalei-me na
minha loja, pronto para uma angustiante espera pela clientela que olhava
desconfiada para a novidade.
Os sinos tocavam anunciado a missa das 12 e quem passava
procurava a sombra, evitando o contacto com sol que agora brilhava intensamente
no centro do céu. Estava entretido a escrevinhar umas coisas quando ouvi um
estrondo. Quando me voltei, avistei uma estranha rapariga que tinha desmaiado,
derrubando um pequeno expositor. Apressei-me em socorrê-la, mas ela rapidamente
recuperou os sentidos. Ao ver-me recuou um pouco, ainda receosa, sem saber o
que tinha acontecido. Quando se apercebeu que tinha derrubado um expositor ficou
muito envergonhada e começou a arrumar as coisas. Pediu desculpa e saiu da loja
a correr.
Acontecera tudo muito rápido, mas aquela desajeitada figura
ficara gravada na minha mente e parecia ter agora um lugar cativo nos meus
pensamentos. Fiquei fascinado com os seus longos cabelos ondulados, bem
escuros, mas que ao sol ganhavam suaves madeixas cor de sangue. Aqueles negros
olhos reluzentes transmitiam uma fria tristeza que a marcava como uma cicatriz
e uma desconcertante onda de mistério. O que achei mais estranho foi o facto de
ela andar de vestido com aquelas pesadas botas do exercito. A sua pele era
suave como a de uma criança e tinha a aparência frágil de uma boneca mas o seu
olhar era selvagem e os seus jeitos nervosos. Creio que nunca tinha visto ninguém
assim, era impossível ficar indiferente à sua presença.
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