5 de setembro de 2011

Libertação (pt. 5)

O sol espreitava pela minha janela, no seu tímido jeito primaveril, trazendo consigo a boa-disposição que eu precisava para dar início ao meu primeiro dia de trabalho. Depois de passar meses a contactar todos os antigos clientes do meu avô e a procurar apoios para o meu projecto, finalmente conseguira abrir a minha pequena loja de artesanato. Agarrei nas últimas peças que fizera e nos meus utensílios e saí da minha casa, situada numa pacata zona da vila. A calma que agora respirava nestes frescos ares da serra ajudara na minha recuperação. Considerava-me agora curado, e pronto para agarrar novos desafios.
Apesar de ainda ser cedo já se viam alguns locais a deslocar-se para os seus empregos. Também alguns turistas, que se aventuravam sozinhos pela vila, à descoberta dos seus muitos segredos... Instalei-me na minha loja, pronto para uma angustiante espera pela clientela que olhava desconfiada para a novidade.
Os sinos tocavam anunciado a missa das 12 e quem passava procurava a sombra, evitando o contacto com sol que agora brilhava intensamente no centro do céu. Estava entretido a escrevinhar umas coisas quando ouvi um estrondo. Quando me voltei, avistei uma estranha rapariga que tinha desmaiado, derrubando um pequeno expositor. Apressei-me em socorrê-la, mas ela rapidamente recuperou os sentidos. Ao ver-me recuou um pouco, ainda receosa, sem saber o que tinha acontecido. Quando se apercebeu que tinha derrubado um expositor ficou muito envergonhada e começou a arrumar as coisas. Pediu desculpa e saiu da loja a correr.

Acontecera tudo muito rápido, mas aquela desajeitada figura ficara gravada na minha mente e parecia ter agora um lugar cativo nos meus pensamentos. Fiquei fascinado com os seus longos cabelos ondulados, bem escuros, mas que ao sol ganhavam suaves madeixas cor de sangue. Aqueles negros olhos reluzentes transmitiam uma fria tristeza que a marcava como uma cicatriz e uma desconcertante onda de mistério. O que achei mais estranho foi o facto de ela andar de vestido com aquelas pesadas botas do exercito. A sua pele era suave como a de uma criança e tinha a aparência frágil de uma boneca mas o seu olhar era selvagem e os seus jeitos nervosos. Creio que nunca tinha visto ninguém assim, era impossível ficar indiferente à sua presença.
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