1 de dezembro de 2012

Silêncio

Pequeníssimas flores brancas caem lentamente no lago, formando cortinas aéreas que se desmancham em mil pedaços de renda. Uma suave brisa passa os seus dedos pelos escorregadios cabelos de Rapunzel, agora fugida, mas cujas madeixas se balanceiam vigorosamente naquelas enormes torres de verde. Por entre as pequenas fendas do barrento chão, dezenas de formigas saem num ritmo frenético divergindo assim que avistam luz. Um pequeno grupo apressa-se a apoderar-se dos vestígios do meu almoço atrasado que percorria pesadamente o meu trato digestivo.
Sinto algo frio percorrer-me a cara e depois, uma pequena esfera transparente embate na minha mão. A minha visão torna-se turva e depois disso a sensação de frio torna-se cada vez mais intensa. São lágrimas que rolam pela minha cara gelada à medida que escurece e o lugar ao meu lado ganha pó. Incontáveis são as vivências que já tive neste lugar e que, por alguma razão, agora pareciam não ser nada mais do que ilusões.
É estranho quando tudo acaba e, num segundo apenas, tudo converge para um minúsculo buraco negro, ficando inacessível por uma fracção de tempo. E nesse momento, por mais que tente lembrar-me, na esperança de poder voltar, pareço perder todas a funções cognitivas e a minha alma deixa-se afundar no vasto vazio que a dor causou. Agora, tudo me parece tão estranho, como se não pertencesse aqui...
Depois de tudo isto, o sentido acaba e com ele também a razão. Os meus pensamentos vagueiam, desnorteados. Um enorme ruído impede-me de ouvir seja o que for e o meu julgamento fica condicionado. Qualquer anormalidade é tida em conta como uma ameaça e sem dar conta, a realidade confunde-se com um cenário de guerra.

Pouco a pouco, torna-se menos frequente confundir-te com um estranho qualquer. A tua imagem torna-se pouco nítida na minha cabeça e a memória de ti parece quase irreal. No entanto, o meu coração continua intacto, como se nada conseguisse reparar a falta do teu amor... Do que sentia mais falta era de me sentir preenchida, de tal maneira que qualquer sentimento parecia residual em comparação ao que sentia por ti. Muitas vezes ouço as pessoas queixarem-se do amor, dizendo que só traz sofrimento, mas nunca consegui concordar com elas. Muitas vezes fiquei triste com algumas palavras ou atitudes, mas era aquele sentimento inexplicável e arrebatador que me dava animo, pois sabia que sentir tal coisa era uma dádiva generosa e rara. Sim, rara. Hoje em dia muitos falam em amor, mas poucos sabem o que é verdadeiramente. A disponibilidade está condicionada pelo egoísmo e isso deixa as pessoas incapazes de amar. É certo que é um risco. Gosto de pensar nisso como um mergulho num profundo abismo, um salto para o enorme desconhecido confiando que chegaremos a um lugar melhor.

Parei por uns momentos, sentei-me num pequeno muro à beira da estrada e fixei o meu olhar na enorme árvore do outro lado da rua. Folhas multicolores desprendiam-se dos ramos e dançando suavemente no ar desciam até chegar ao chão. Numa forte rajada, o vento passou e levava consigo as folhas fazendo um som como o de saias a rojar o chão. Os meus cabelos movimentaram-se descontroladamente pelo ar, ferindo-me a vista. Ainda assim, senti-me confortável ali, como não me sentia há muito tempo. O vento parecia abraçar-me e sei que um dia voarei para longe, como aquelas folhas, sem saber onde irei parar. E isso, de algum modo, deixa-me feliz.

http://vimeo.com/45089420
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