Após pensar um pouco, ocorreu-me que a minha vida talvez se
aproximasse das séries que vejo. Passo a explicar.
Estou sempre à procura de um bom romance para ver, mas frases
feitas e elogios pirosos em excesso começam a parecer falsos. E assim, da mesma
maneira como me canso de ver romances, também me farto de lidar com outras
pessoas em clima de aparente romance. Nas séries parece sempre tudo perfeito,
pois ainda que hajam problemas os sentimentos que unem as personagens são
sempre verdadeiros e perfeitos. Na vida real as pessoas parecem estar apenas a
esforçar-se para fazer jus a um ideal de perfeição.
Assim sendo, passo para o próximo género. Procuro coisas
fantásticas ou relacionadas ao sobrenatural, mas sempre com um toque de acção.
Os romances cansaram-me e preciso de entusiasmo, mas elevo o sonho a um nível
mais alto. Já não estamos a falar de sentimentos idealizados, desconhecidos ao
ser humano, mas sim de mundos alternativos ou até mesmo de criaturas diferentes
das que conhecemos, mutantes de humanos ou quem sabe talvez cruzamentos entre
divindades e mortais. Estas histórias fazem as pessoas aspirarem ser um versão
melhor delas próprias, ter capacidade para fazer o que nenhum humano consegue
ou, simplesmente, fugir para outro mundo. Também eu quero ser um eu melhor,
fazer coisas que ninguém consegue. E que coisas são essas? Eu quero exceler nas
minhas verdadeiras paixões, aquilo que sei fazer melhor. As fases que passo a
ver séries de fantasia/sobrenatural podem ser comparadas às fases em que me
dedico, quase exclusivamente, às coisas que mais gosto de fazer, o que me faz
sentir uma pessoa activa e produtiva. Eventualmente começar-me-ei a sentir
desligada da realidade e tanta fantasia deixar-me-á tonta, parando de ver esse
tipo de séries. Do mesmo modo, o tempo dedicado ao trabalho começará a parecer
um fardo e a distância das outras pessoas parecerá enorme, e, por isso, decido
parar por um tempo.
Como a minha mente pede coisas mais reais e a solidão se apoderou
de mim, passo então a ver dramas. Quanto mais tristes melhor. Chego até a
pensar que se não me comover não é uma boa série e que a realidade é ainda mais
triste do que a que retratam em algumas séries. A medida que a minha exigência
aumenta os enredos tornam-se mais complicados, longos e emocionalmente
devastadores. Há uma altura em que só tristeza e sofrimento não chegam, preciso
de ver coisas sangrentas. As personagens são cada vez mais corrompidas e as
suas acções perturbadoras. Com tudo isto, a minha mente enche-se de pensamentos
obscuros e a visão do mundo torna-se dura e amarga. E assim, para evitar perder
completamente a esperança na humanidade passo a ver outro tipo de séries.
Na fase seguinte, para recuperar a esperança e os pensamentos
felizes, vejo coisas mais ligeiras. E assim chegamos ao género menos apreciado
por mim, talvez, mas cujo poder não poderá em situação alguma ser subestimado,
a comédia. Também eu tenho fases de comédia, quando estou tão nervosa que não
sei o que dizer e tudo o que consigo pronunciar são parvoíces inconvenientes ou
quando ouço música muito alto e faço coreografias estranhas ou ainda quando
faço uso das minhas capacidades, recentemente descobertas, de fangirling.
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