Alguns dos meus amigos carregam dentro de si o peso da tristeza de perder um dos seus
avós ou até mesmo os dois, com quem tinham memórias muito queridas da sua
infância. Para muitas pessoas, eles podem parecer malfadados, mas para mim eles
são sortudos. Podem não ter avós, mas as memórias dos momentos
felizes que passaram ninguém lhes pode tirar.
Os meus avós parternos vivem em Cabo Verde, pelo que só os vi uma
vez, o meu avó materno morreu aproximadamente 1 mês antes do meu nascimento e a
minha avó materna é prisioneira. Sim, leram bem, prisioneira. Ela é prisioneira
da sua própria mente. A minha avó materna tem Alzheimer e por
isso eu nunca a conheci verdadeiramente.
Desde que me lembro, a minha avó sempre viveu presa no seu
passado. Trocava nomes, confundia a realidade com as suas memórias e dizia
coisas sem sentido. À medida que fui crescendo, vi a minha avó deixar de fazer
as coisas que sempre associei à sua pessoa: rezar o terço, fazer renda, ler...
Mesmo com uma mente que lhe pregava partidas, a sua energia sempre fez inveja a
muitos mais novos. Mas também isso foi perdendo e, aos poucos, a pessoa que
antes era desaparecia aos poucos.
Ver toda esta (des)evolução do estado de saúde da minha avó sempre
me causou muita confusão, mas nada se compara à tristeza de nunca a ter
conhecido e à dor de
saber que, para ela, eu nunca existi. A sua saúde
mental nunca lhe permitiu gravar a minha existência na sua memória, assim sendo
sempre que me chamava usava o nome de um dos seus filhos, das pessoas de quem
ela gostava e de quem se lembrava. A minha avó nunca chamou o meu nome.
Posso não perceber a dor de perder os meus avós, mas poucas
pessoas conhecerão a dor de ter uma avó que te vê como um estranho.
Meu Deus, poderá ela algum dia saber que eu a amo?
Avó,
quando de dou a comida a boca, notas que não sou uma das tuas filhas?
Reconheces a textura da minha pele quando te acaricio? Quando falo
contigo, tu ouves?

Ela ouve, mas não aqui.
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