9 de setembro de 2013

Estás a ouvir?

Alguns dos meus amigos carregam dentro de si o peso da tristeza de perder um dos seus avós ou até mesmo os dois, com quem tinham memórias muito queridas da sua infância. Para muitas pessoas, eles podem parecer malfadados, mas para mim eles são sortudos. Podem não ter avós, mas as memórias dos momentos felizes que passaram ninguém lhes pode tirar.
Os meus avós parternos vivem em Cabo Verde, pelo que só os vi uma vez, o meu avó materno morreu aproximadamente 1 mês antes do meu nascimento e a minha avó materna é prisioneira. Sim, leram bem, prisioneira. Ela é prisioneira da sua própria mente. A minha avó materna tem Alzheimer e por isso eu nunca a conheci verdadeiramente.
Desde que me lembro, a minha avó sempre viveu presa no seu passado. Trocava nomes, confundia a realidade com as suas memórias e dizia coisas sem sentido. À medida que fui crescendo, vi a minha avó deixar de fazer as coisas que sempre associei à sua pessoa: rezar o terço, fazer renda, ler... Mesmo com uma mente que lhe pregava partidas, a sua energia sempre fez inveja a muitos mais novos. Mas também isso foi perdendo e, aos poucos, a pessoa que antes era desaparecia aos poucos.
Ver toda esta (des)evolução do estado de saúde da minha avó sempre me causou muita confusão, mas nada se compara à tristeza de nunca a ter conhecido e à dor de saber que, para ela, eu nunca existi. A sua saúde mental nunca lhe permitiu gravar a minha existência na sua memória, assim sendo sempre que me chamava usava o nome de um dos seus filhos, das pessoas de quem ela gostava e de quem se lembrava. A minha avó nunca chamou o meu nome.
Posso não perceber a dor de perder os meus avós, mas poucas pessoas conhecerão a dor de ter uma avó que te vê como um estranho.
Meu Deus, poderá ela algum dia saber que eu a amo?



Avó, quando de dou a comida a boca, notas que não sou uma das tuas filhas? Reconheces a textura da minha pele quando te acaricio? Quando falo contigo, tu ouves?

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