Depois de me perguntar se tinha a certeza de que era isso
que queria ele começou a despir a minha roupa lentamente. Depois de tirar o que
achou ser suficiente pegou em mim e deitou-me na cama. Não disse uma palavra,
mas eu conseguia perceber que estava a ser cuidadoso.
A maneira como me olhou fez-me
estremecer. Não era um olhar apaixonado, mas conseguia ver o desejo que ardia
lentamente dentro de si. Os seus movimentos transmitiam calma, mas eram
decididos. Não havia qualquer vestígio de hesitação e isso agradava-me. Aquela
não era a altura para ter medo e ambos sabíamos exactamente o que queríamos.
Estávamos muito longe de ser
aquele casal perfeito que qualquer típica história de amor descreve, mas
naquele momento era o que parecia mais indicado e ninguém nos poderia criticar
pelas nossas escolhas.
Naqueles momentos sentia-me
calma. Apesar de serem apenas devaneios prazerosos, uma corrida contra o tempo
cujo resultado está decidido à partida, eu sentia-me feliz. Não me sentia
completa, afinal não era uma relação plena mas era o suficiente para me deixar
à deriva, feliz o suficiente para me sentir normal. Os cheiros daquele local
tinham-se tornado familiares e tudo ali me fazia sentir segura. Ou seria ele?
Não queria pensar nisso. Este
equilíbrio frágil que construíra com esforço era algo que queria preservar.
Longe dos olhares curiosos, afastada das coisas que me fazem sofrer. Encontrara
refúgio naquele lugar, naquela relação que mais ninguém conhece. O meu pequeno
segredo.
Segredo… Gostava das coisas
assim. O facto de ser segredo retirava a pressão dos olhares observadores e
expectativas dos outros. Mas acima de tudo fazia-me sentir um certo entusiasmo,
algo que não sentia há muito. Será assim tão errado o que estamos a fazer?
Neste momento gostaria de acreditar que não.
Até quando poderemos continuar
assim? Até nos fartarmos? Até um de nós encontrar alguém cuja existência seja
mais importante que as nossas aventuras?
Visto o meu casaco, saio porta
fora e dirijo-me ao local combinado. Apesar das minhas dúvidas e dos meus
receios não consigo deixar esta sensação. Este hábito que se tornou vício. Os
momentos que passamos juntos fazem-me esquecer tudo, as feridas do passado, as
preocupações do presente, as incertezas do futuro... Só consigo ouvir o bater
do meu coração acelerar loucamente até me deixar surda; as nossas respirações
ofegantes; o toque da pele dele, ligeiramente suada; as nossas trocas de
olhares… Não preciso de promessas de amor eterno, palavras bonitas sem qualquer
significado, espectativas irrealistas de um futuro imprevisível. Quero ser
feliz agora, neste momento, mesmo que o que sinta possa não ser na verdade
felicidade mas sim uma ilusão causada pelo meu estado de euforia.