3 de abril de 2017

Sortes

             Olhares indiscretos, movimentos apressados, conversas superficiais. Neste tango cujo ritmo vai aumentado cada vez mais, quem desejar mais perde. O elogio ocasional faz subir a parada e incha o peito do adversário, feito parceiro, que por segundos é levado a pensar que neste jogo talvez não haja indiferença. Uma indiferença total pelos sentimentos e necessidades do outro, uma vez começado o jogo já ninguém pode sair a meio e caso o outro não estivesse preparado para jogar nunca deveria ter começado. Porque neste jogo não há piedade, apenas a autogratificação de quem sai vencedor, orgulhoso e apático.
            Oh, mas quantos fazem fila, ansiosos pela sua vez. Ainda que muitos saibam que irão ser subjugados pelo seu adversário, a adrenalina de jogar é o suficiente para os empurrar para esta roleta russa. Quem nunca jogou observa curioso, ignorando os eventuais perigos e imaginando como seria participarem também. Este vício que alicia muitos, não tem verdadeiros vencedores nem perdedores, apenas uma ilusão de sensações de prazer e de poder sobre o outro.
            Remando vêm, em busca de uma miragem. A angelical Vénus que lhes acena é a Medusa que os catapulta para um abismo de irremediáveis sonhos desfeitos. Promessas de prazer para além de transcendental, uma paixão quasi capaz de igualar um amor alado, uma felicidade verdadeira ainda que nascida de algo efémero.


            A chama que se acende dentro de mim e que me faz calar é a mesma chama que consome e me mata. Uma chama que arde sem critério, mesmo quando o tempo parece estar calmo e o vendaval ter passado. Este vício que esfria mas nunca se apaga só pode ser curado com a rara impossibilidade de entrar num jogo em que todos vencem, sendo agraciados com a felicidade plena de avançar seguro, com uma mão amiga do nosso lado.
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