Olhares
indiscretos, movimentos apressados, conversas superficiais. Neste tango cujo
ritmo vai aumentado cada vez mais, quem desejar mais perde. O elogio ocasional
faz subir a parada e incha o peito do adversário, feito parceiro, que por
segundos é levado a pensar que neste jogo talvez não haja indiferença. Uma
indiferença total pelos sentimentos e necessidades do outro, uma vez começado o
jogo já ninguém pode sair a meio e caso o outro não estivesse preparado para
jogar nunca deveria ter começado. Porque neste jogo não há piedade, apenas a autogratificação
de quem sai vencedor, orgulhoso e apático.
Oh,
mas quantos fazem fila, ansiosos pela sua vez. Ainda que muitos saibam que irão
ser subjugados pelo seu adversário, a adrenalina de jogar é o suficiente para
os empurrar para esta roleta russa. Quem nunca jogou observa curioso, ignorando
os eventuais perigos e imaginando como seria participarem também. Este vício
que alicia muitos, não tem verdadeiros vencedores nem perdedores, apenas uma
ilusão de sensações de prazer e de poder sobre o outro.
Remando
vêm, em busca de uma miragem. A angelical Vénus que lhes acena é a Medusa que
os catapulta para um abismo de irremediáveis sonhos desfeitos. Promessas de
prazer para além de transcendental, uma paixão quasi capaz de igualar um amor alado, uma felicidade verdadeira ainda
que nascida de algo efémero.
A
chama que se acende dentro de mim e que me faz calar é a mesma chama que
consome e me mata. Uma chama que arde sem critério, mesmo quando o tempo parece
estar calmo e o vendaval ter passado. Este vício que esfria mas nunca se apaga
só pode ser curado com a rara impossibilidade de entrar num jogo em que todos
vencem, sendo agraciados com a felicidade plena de avançar seguro, com uma mão
amiga do nosso lado.
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